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Miguel Giannini, mais que um esteta ótico

Miguel Sadocco Giannini é paulistano e descendente de imigrantes italianos. Ainda jovem, deixou para trás a casa modesta dos pais e partiu em busca de sua vocação. Durante dez anos trabalhou em uma óptica onde fez de tudo e, desta forma, encontrou sua aptidão: ser um esteta óptico. Foi só uma questão de tempo para atingir a notoriedade e ser respeitado até no exterior.

Criador de conceitos, Miguel já moldou a expressão de muita gente famosa, do presidente da República a astros da música. No dia-a-dia, atende com o mesmo zelo celebridades e pessoas comuns em um sobrado histórico no bairro Bela Vista, no centro de São Paulo, que ele mesmo mandou restaurar. No local, funciona também um museu de óculos. Giannini dedica-se ainda a causas sociais. Sua maior obra nessa área é o Lar Especial Francisco de Assis, uma instituição com 200 leitos para crianças carentes, em construção, a ser inaugurada em janeiro de 2002.

Nesta entrevista exclusiva, Miguel Giannini conta mais detalhes de sua história, de sua profissão, de seu trabalho social e dá dicas aos leitores de Saúde Visual de como escolher bem seus óculos.

 

Saúde Visual: O que é e o que faz um “esteta óptico”?

Miguel Giannini: Um esteta ótico é o profissional que olha para seu cliente de maneira abrangente. Significa que não nos preocupamos apenas com o rosto e suas características. O perfil do cliente nos informa sobre sua personalidade e estilo de vida. Para que um par de óculos seja literalmente “a cara” de quem está a nossa frente é fundamental que tudo o que se refere à pessoa, seja analisado. Ou seja, dimensões do rosto, tipo de nariz e sobrancelhas, tonalidade de pele, cabelos, formato de rosto, personalidade e estilo.

SV: Mas o senhor não começou diretamente como esteta, certo? Qual seu começo profissional e quando e por que o senhor decidiu seguir esta tendência?

MG: O começo da minha vida profissional foi semelhante à de todo garoto que precisa trabalhar. Iniciei como Office boy na antiga Foto City, no centro da cidade de São Paulo. Passei por todos os departamentos da ótica e dez anos mais tarde já trabalhava por conta própria. Ao longo dos anos, muitas dúvidas surgiram, como por exemplo: se as pessoas têm características faciais diferentes, porque usar os mesmos modelos de armação? Analisando, cheguei à conclusão que precisava mudar essa sistemática e comecei a aplicar a minha teoria de aliar técnica ótica e estética. Os primeiros resultados tiveram ótimos resultados e estou eu, aqui, há mais de 40 anos aperfeiçoando meu trabalho a cada dia.  

SV: O senhor é o único esteta óptico do país? Além das aulas e palestras, não pensa em desenvolver um curso para propagar esta profissão?

MG: Por ser criador do atendimento personalizado, registrei o título, mas o trabalho é desenvolvido por todos os vendedores das minhas empresas, inclusive os que já saíram e criaram lojas próprias.  Quando os consultores chegam à empresa, passam por uma atualização de conceitos. Recebem informações sobre atendimento personalizado, comportamento e vendas. Montar cursos para o setor é complicado, porque o que mais falta na minha vida é tempo para me dedicar a outra atividade.

SV: Como é e como funciona seu ritmo de trabalho?

MG: Vou para a loja do bairro Bela Vista pela manhã e só saio com o último cliente. Isto significa quase dez horas de trabalho por dia, entre atendimento e supervisão das áreas administrativas e laboratório de montagem. 

SV: O senhor atende a todas as idades ou existe um público específico?

MG: Não há diferença entre homem, mulher e criança. Aprendo com todos. Aliás, hoje recebo netos e bisnetos dos primeiros clientes da loja do centro. A única diferença é que hoje há um departamento específico na loja da Bela Vista para crianças com decoração especial e passarela para a garotada fotografar e mandar para as redes sociais.

SV: Os óculos devem mesmo refletir a personalidade da pessoa ou isso é um mito?

MG: Claro. Se o vestuário já tem essa característica, porque óculos não teriam? Afinal, desde os anos de 1970, óculos são acessórios. Além disso, está sobre o rosto, centro de atenções e olhares. Precisam demonstrar em sua plenitude como é aquela pessoa. Até porque, roupa e acessórios hoje são elementos de comunicação externa, formação de tribos, comunidades específicas e mais: apresentação social. Alguém que procura trabalho e se mostra ao empregador de forma inadequada, dança.

SV: Recentemente a Transitions Optical elaborou um passo a passo para a escolha dos óculos, e contou com a sua parceria. Como o senhor avalia essa preocupação em levar informações para o público?

MG: Vivemos a era da comunicação, portanto, nada mais importante do que informar o público sobre assuntos que podem fazer a diferença principalmente em relação à saúde ocular. Sabemos que uma enorme porcentagem da população brasileira precisa usar óculos. E, ainda por absoluta falta de informação, repele o uso de lentes graduadas. Nossa função é mostrar de forma simples que uma peça pode oferecer elegância e beleza não só ao rosto, mas ao estilo do cliente. Acabou aquele olhar medieval de que óculos eram “equipamentos óticos”. Desde os anos de 1970, tornaram-se definitivamente acessórios de moda que, eu chamo de “necessórios”, porque junta a necessidade de enxergar com acessório de moda.

SV: O que pesa mais na escolha de um óculos: o perfil psicológico do paciente ou a aparência?

MG: Como já disse anteriormente, o cliente é analisado da cabeça aos pés. Não se pode deixar de lado a forma de ser do consumidor, porque todas as suas características devem ser respeitadas. Uma armação escolhida ao acaso pode levar a pessoa não usar e agravar ainda mais o problema de visão.

SV: Pode-se dizer que um esteta óptico deixa a pessoa mais bonita, ou isso seria desinformação?

MG: (risada) Não chego a esse ponto, não sou cirurgião plástico, mas podemos disfarçar alguns probleminhas indesejáveis de pele, altura de sobrancelhas, tornar o rosto mais iluminado só usando modelos e cores adequadas.

SV: Mas existe um óculos para cada ocasião?

MG: Um estilo de óculos para cada hora do dia. Veja bem, pela manhã ao caminhar, uma mulher não deve sair cheia de brilhos. O bom senso indica roupa e tênis confortáveis e óculos escuros com filtros ou esportivos com ou sem grau para proteger do sol e da luz olhos e pálpebras. Para o trabalho, armação colorido com lentes transparentes graduadas. Para uma festa ou evento, a armação deve ser escolhida depois da roupa para que à última hora, principalmente a mulher mais vaidosa, não apareça superchique com óculos de vinte anos 20 atrás. E mais: não há apenas um modelo de armação para cada período do dia. Quem gosta, muito, têm diversos óculos não só para o trabalho, cinema, balada, mas várias peças para cada modalidade de esporte da bicicleta à montanha, incluindo óculos de natação e máscaras de mergulho com lentes graduadas. Há muita gente fã de óculos, a ponto de ter em casa uma enorme coleção de grau e sol.

SV: Nestes anos de profissão, qual o maior desafio que o senhor enfrentou para melhorar a aparência de alguém através do uso de óculos?

MG: Enfrento grandes desafios todos os dias. Cada cliente apresenta características próprias. Gêmeos podem ser iguais fisicamente, mas a personalidade e comportamento normalmente são opostos. Imagine, já atendi cerca de 500 mil pessoas.  Ainda bem que sou instigado apensar, pesquisar a cada atendimento. Já pensou que chatice, não ser desafiado?

SV: E existe arrependimento na escolha de óculos? O que fazer?

MG: Raramente, mas acontece quando as pessoas teimam e comprar a armação inadequada. Um caso curioso ocorreu há pouco tempo. Uma jornalista tímida gostou de uma armação vermelha. Achei estranho, insisti para que relevasse e comprasse outro modelo. Inútil, ela se manteve irredutível. Uma semana depois, a garota voltou para trocar, porque se sentia muito exposta com vermelho sobre o rosto. Trocamos por uma peça de metal bronze e ela saiu da loja supercontente. Há muita gente tem necessidade emocional de ser anônima.

SV: E o que dizer para pessoas que gostam de vários modelos e ficam na dúvida?

MG: Algumas dúvidas sempre ocorrem, por isso, o vendedor precisa ter muita paciência, ser gentil e elegante. Ninguém é obrigado a aceitar uma armação, se não estiver preparado. Importante é explicar o porquê da escolha e seus atrativos. Se o caso é de graus altos, informar o comprador como será o resultado final. Ninguém pode sair com dúvidas de uma ótica. No atendimento personalizado isso ocorre raríssimas vezes, porque com base no receituário e perfil do comprador, indicam-se modelos semelhantes com cores ou tons diferentes, porque não podemos nos esquecer de que, o que rege a sugestão de um modelo são os graus das lentes. Quanto mais altos, menores os aros para que o usuário não carregue peso extra sobre o nariz.

SV: O senhor só trabalha com receituário ou com óculos de sol, também?

MG: Trabalho com tudo e ainda desencovemos produtos próprios. O leque de ofertas deve ser sempre maior do que a clientela imagina, por isso, temos ainda as lentes coloridas artificialmente, que a moçada adora. Ou seja, as laranjas, roxas, vermelhas, amarelas tingidas e não dotadas de filtros que eliminam raios solares. Só devem ser usadas como acessórios na balada, festas ou eventos. Preferencialmente em ambientes escuros, porque provocam fotofobia pelo excesso de luz que recebem. Afinal, essas lentes não têm filtros.

SV: O senhor poderia explicar, dentro da visão do esteta óptico, as diferenças entre óculos claros, escuros e coloridos?

MG: A escolha de uma armação para lentes graduadas precisa sempre de mais atenção no atendente, porque se trata de um objeto estranho sobre o rosto. Quanto mais adequado ao comprador, menos projetado sobre o rosto, mesmo com cor forte, porque segue exatamente as exigências do perfil do comprador. Os solares não são óculos que se pode disfarçar, até porque a função é proteger contra sol e luminosidade. Por isso, deve cobrir toda a região ocular, incluindo as sobrancelhas.

SV: Como surgiu a ideia e como foi sua experiência de levar óculos para os índios?

MG: Há décadas, o dr. Rubens Belfort de Mattos já atendia a comunidades indígenas do interior do país. Quando fui convidado a participar desse trabalho com a equipe da Universidade Federal de São Paulo não pestanejei e foi um trabalho fantástico para mim especialmente. Conheci de perto as dificuldades pelas quais nossos índios passam em relação à saúde em geral. Muitos deles, os mais velhos, já não pescavam nem caçavam por não enxergar. Quando voltamos, já com as peças montadas, foi uma emoção enorme para eles porque, assim que colocaram os óculos com graus, correram para recomeçar a pesca no rio, abandonada há anos. Atualmente, participamos de duas expedições anuais da Universidade de São Paulo e Universidade Federal de São Paulo, aos estados do norte e nordeste do Brasil com o mesmo trabalho de levar óculos às comunidades pobres. Com essas expedições, a sociedade local recebe também atendimento de várias especialidades médicas. Participo ainda de um trabalho de doação de óculos com Hospital Sírio Libanês para crianças em idade escolar entre outros trabalhos menores, mas não menos importantes.

SV: O senhor desenvolve um trabalho social, correto? Conte-nos sobre isso.

MG: Ser solidário é importante a todas as pessoas. Aliás, ajudar é uma característica do povo brasileiro. Vemos isso frequentemente nas campanhas de doações transmitidas pela TV. Faço porque gosto e gosto porque atendo a quem precisa. A empresa Miguel Giannini Óculos já participou de muitas iniciativas com doações de óculos. Não me furto a isso. Posso, logo devo e quero ser solidário sempre.

SV: Em sua loja no bairro da Bela Vista, em São Paulo, existe um museu do óculos. A ideia foi sua? Como surgiu?

MG: O museu dos óculos leva o nome da minha mãe em homenagem ao trabalho que, juntos desenvolvemos na loja do centro da cidade. Colecionava armações antigas, que recebia de presente de alguns clientes. Quando decidi comprar o imóvel do bairro da Bela Vista, percebi que tinha espaço suficiente para instalar um pequeno museu. E assim foi. Hoje há em exposição cerca de 250 peças, que cobrem oito séculos de história, do ano 500 antes de Cristo à atualidade. Uma gostosa diversão para quem curte arte e história.

SV: Além da loja na Bela Vista, o senhor conta com mais duas lojas. Atende em todas?

MG: São três lojas: A primeira aberta ainda funciona no Centro da cidade de São Paulo; outra dentro do Jóquei Club de São Paulo, zona sul, e a da Bela Vista, onde atendo diariamente e onde está o museu dos óculos.

SV: O senhor conta com uma vasta lista de celebridades entre seus clientes. O senhor pode nos contar algum caso curioso sobre algum deles ligado à sua ação profissional?

MG: A ética não me permite falar sobre clientes, mas vários atores procuram nosso trabalho para inclusive compor personagens. Marcos Caruso, ator e diretor de teatro, é um deles. A cada trabalho, Caruso procura uma peça diferente. É um profissional fantástico. Mariana Ximenes também é nossa cliente, assim como, Mel Lisboa, Tarcísio e Glória Meneses, Lucélia Santos. Entre os políticos, os últimos quatro presidentes da República, senadores, deputados, governadores. Muita gente.

SV: É mais difícil atender celebridades ou o público ‘comum’?

MG: Todos acatam as sugestões. Não há diferença. Inclusive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deixa a escolha das armações ao meu critério e apenas telefona para formalizar o pedido e uma semana depois, manda buscar os óculos já montados e ajustados.

SV: Muita gente ainda acha que óculos tem que ser bom, bonito e barato. Tem como aplicar esta máxima aos óculos?

MG: As pessoas têm razão. Armações bonitas, de qualidade e a preços razoáveis não precisam ser caras ou de grife. Na realidade, devem ter acara e o jeito do cliente, oferecer boa visão e conforto. Só isso.

SV: Que dicas o senhor daria aos leitores de Saúde Visual sobre combinar óculos de grau com o rosto?

MG: São várias observações sobre o mesmo tema:

A) Ao experimentar, sentir se a armação está confortável sobre o nariz;

B) Não ultrapassar as sobrancelhas para deixar a parte superior do rosto livre de interferência;

C) Aros inferiores não devem bater sobre a pele das maçãs para não marcar;

D) Ao escolher as lentes, que sejam de qualidade para não provocar aberrações visuais;

E) Comprararmações e lentes leves para que a pele sobre o nariz não seja marcada e futuramente ferida;

F) Lavar os óculos duas vezes ao dia com detergente e muita água corrente fria e enxugar com papel fino sem esfregar e

G) A cada três ou quatro meses, voltar à ótica onde comprou os ópara ajustes e higienização. 

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